Dependente químico recuperado dá exemplo e abre próprio negócio
Paulo Alves, natural de São Miguel dos Campos, fez curso de padeiro no Centro de Reinserção Social para Dependentes Químicos
sexta, 26 de julho de 2019 às 00h00
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Texto de Géssika Costa
Fotos de Vítor Beltrão
Na receita adicione compreensão, coloque inclusão e uma boa pitada de oportunidade. Assim é a vida de Paulo Alves, de 41 anos, empreendedor do ramo da panificação que mudou a sua história após descobrir na fabricação de pães caseiros uma nova chance de garantir renda para a família e, bem mais do que isso, viver longe do vício.
Natural do município de São Miguel dos Campos, região Metropolitana de Maceió, o agora padeiro – num passado não tão distante - chegou a traficar drogas, virou dependente químico, além de ter sido alvo de várias tentativas de assassinato.
Na nova vida, a fama de Paulo agora é outra. A qualidade e a excelência dos produtos desenvolvidos na cozinha do seu lar se espalharam na região onde mora e os amigos e vizinhos começaram a encomendar os pães caseiros.
A virada na vida de Paulo só foi possível graças ao trabalho da Comunidade Acolhedora Dom Bosco, um dos 35 espaços de recuperação credenciados à Rede Acolhe, e do Centro de Referência em Reinserção Social e Produtiva para Dependentes Químicos de Alagoas. Por lá, durante alguns meses, após finalizar o tratamento contra dependência química, ele aprendeu o ofício de padeiro num dos cursos que o equipamento da Secretaria de Estado de Prevenção à Violência oferece.
“Quando eu olho para trás e vejo o que eu era às vezes nem acredito, mas com a ajuda de Deus e dos Anjos e Agentes da Paz consegui vencer. Quem me vê hoje, aos 40 anos, não imagina que aos 15 anos experimentei a primeira droga, aos 18 conheci o crack e aos 20 comecei a usar drogas injetáveis”, relembra.
O miguelense sonha alto. Com as perspectivas da guinada nos negócios, ele pretende ajudar outras pessoas que também passaram pela mesma situação.
“Esse curso foi que me despertou porque a gente muitas vezes anda atrás de trabalho e nem sempre consegue de imediato. Agora eu tenho sonho de abrir formalmente a ‘Nira Pães’ e colocar pessoas que passaram pelo que eu passei para trabalhar conquistando o pão de cada dia”, projeta.
Os pães recheados de frango, pão de queijo, chocolate e goiabada – com valores de R$ 5 a R$10 - vêm contribuindo para o orçamento da família, como ressalta Solange Alves, mãe de Paulo.
“Com a ajuda da comunidade e do curso de padeiro meu filho renasceu. Fico feliz quando vejo as pessoas que estão comprando parabenizando a qualidade do pão e também o exemplo de superação. De pouquinho em pouquinho, as vendas vão saindo.”, expõe com orgulho Solange.
Thiago Rodrigues, dos Agentes da Paz, que acompanha Paulo, conta que o próximo passado da equipe é auxiliá-lo na abertura do registro de Microempreendedor Individual (MEI).
“Estamos acompanhando todo o processo de reinserção dele e ficamos felizes quando vemos que o que estamos fazendo vem surtindo efeito. Agora vamos ajudá-lo a formalizar a padaria e assim contribuir para a profissionalização efetiva”, adianta.
Histórico
O Centro de Referência em Reinserção Social e Produtiva para Dependentes Químicos de Alagoas - um marco na história no trabalho realizado pela Secretaria de Estado de Prevenção à Violência (Seprev) - completou em junho um ano de atividades com grandes resultados.
O equipamento, que oferta cursos, oficinas produtivas e acompanhamento psicossocial de dependentes químicos que foram acolhidos e recuperados por uma das 35 comunidades acolhedoras credenciadas à Rede Acolhe, capacitou em um ano de funcionamento mais de 300 pessoas e contribuiu com a inclusão no mercado de trabalho de outras 50.